terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Sem abrigo, sem estrelas

Aqueles olhares de quem está agora do outro lado, conscientes da facilidade e da rapidez com que atravessaram a linha que separa a ventura da desgraça. Aqueles olhares perdidos, um pouco envergonhados. Aqueles olhares corajosamente assumidos, gritando ajudem-me, sussurrando já não há salvação. Aqueles olhares tristemente tão longe, tão desesperados e outrora brilhantes como os de qualquer criança.

3 comentários:

Anónimo disse...

Será que um dia, juntos, conseguiremos trazer algum deles de novo da desgraça para a ventura? Algumas instituições tratam das suas necessidades básicas, mas o nosso desafio será sempre maior: reconstruir o ser humano e dar-lhe as ferramentas que o possam sentir-se novamente útil para a sociedade? Desafio ou apenas sonho?
7'

cris disse...

Aqui te deixo algo que fui buscar ao "baú", Chloé.
Há uma "cidade que se desmoronou", por baixo de cartões.
Não hiberna, não sonha que haverá um dia sol, sequer pensa que haverá dia.
Insiste(a isso é obrigada...) a suportar uma noite, outra noite e mais outra noite, incessantemente.

Sem abrigo

Pisava, descalço, o asfalto da cidade que escaldava.
Obedecia cego, ao apelo do corpo que o fascinava,
Deitava-se e imaginava a tarde calma.

Amava então, louco como os marginais.
Saciavam-lhe o desejo, nunca a Alma.
Constrangido, forçado, batia com a mão no peito
Por mentiras alheias,
E engolia depois os cristais da Verdade
Como se fossem coisas feias.

Só não provara ainda da água branca de uma fonte,
Água que alguém lhe garantia “... te fará viajar e sair
para sempre destas miragens polutas...”

Mas ele não queria essa viagem sem retorno
E apagava a sede que o oprimia
Com as lágrimas salgadas que vertia,
Por se saber tão só e tão cobarde
No centro do anel de fogo em que vivia...



Será que um dia saberão o que é uma estrela?
Um beijo, Chloé.

Chloé disse...

Não sei, mas é assustador ver tantos "nós" por aí abandonados, abandonados por si próprios ao desespero!...sem sequer terem forças para levantar a cabeça... sabendo da existência de estrelas por lembranças remotas! Está uma delícia o teu texto. Um beijo grande!